Assumir posições

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… Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor de nosso jardim, e não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e conhecendo nosso medo arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada” .
O texto acima é do poeta fluminense Eduardo Alves da Costa. Embora tenha sido escrito na década de 60, no contexto dos anos de chumbo, sua releitura é oportuna para nós que moramos e trabalhamos na Lapa e região.
Desde janeiro de 2005, servidores públicos instalados em gabinetes oficiais ou mesmo nas salas de equipamentos igualmente públicos optaram por desprezar as flores que há décadas passamos a cultivar.
Tomados por um enigmático prazer, que até mesmo Freud e outros grandes nomes da psicanálise teriam dificuldade de explicar, passaram a desdenhar, quando não a debochar – valendo-se de uma ironia nada fina-, do jeito lapeano de ser.
Sem cerimônia e com grande e voraz aptidão por destruir e desunir, invadiram os jardins da gente para pisar em valores e tradições que nos são caros, como a amizade, que cotidianamente celebramos, e a vontade expressa de estarmos juntos do outro em caminhadas, jantares, churrascos,bailes, bazares,quermesses, “arraiás” e outros tantos eventos ,onde cultivamos o companheirismo, a solidariedade e celebramos a paz.
Inspirados nos exemplos nada democráticos de seus superiores imediatos, até mesmo os “mais frágeis deles”, percebendo que embora estejamos juntos, ainda nos falta a força de uma coesão, vibram quando um pedido da gente retorna com a marca registrada do administrador do não: “indeferido”. Haja divã para explicar tamanha euforia.
Antes que nos próximos 18 meses esse alto e baixo clero, venha a nos roubar a voz e a nossa alma lapeana, que todos nós – Imprensa, Amigos de Bairro, OAB, ACSP, CIESP, sindicatos, colégios, faculdades, Rotarys, movimentos de cidadania e os servidores públicos do bem – possamos ser capazes de, num tom forte e único, dizer: “Basta!”
É preciso marcar posições e assumir a defesa da nossa alma comunitária. Resta saber, agora, quem assinará embaixo em favor da explícita defesa do direito à cidadania que este jornal, a serviço da comunidade, tem o dever e a coragem de lançar.

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