Distopia possível

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É impressionante ver a evolução da humanidade, com avanços na exploração do espaço, na medicina, engenharia, com a possibilidade de armazenar terabytes em estruturas cada vez menores. Temos conhecimento de possibilidades científicas que nossos ancestrais jamais sonhariam que um dia poderiam ser realizadas. Mas ao mesmo tempo em que a ciência responde diversos questionamentos, ainda encontramos comportamentos que nos fazem sentir de volta à idade média.

A “queima da bruxa” realizada na frente do Sesc Pompeia na terça-feira (7) é uma delas. A filósofa e professora da Universidade da Califórnia, Judith Butler, foi hostilizada por manifestantes que a acusam de ser uma ameaça às crianças e à família tradicional, além de responsável pelo que chamam de “ideologia de gênero”. Claramente esses críticos não se deram ao trabalho de ler sua obra. E ainda, a autora veio ao País para falar sobre democracia, e não sobre seus estudos em que questiona se o conceito de gênero é uma construção cultural ao invés de biológica.

Muitas obras de ficção exploram a temática dos universos distópicos, que mostram sociedades lideradas por um governo opressor, que dita todas as regras do que é permitido fazer, usar e até pensar. É esse modelo de governo que queremos? Onde apenas um tipo de pensamento é permitido? É assustador perceber que muitas pessoas parecem querer justamente isso.

Vivemos em um País carente de cultura, com enormes dificuldades para aqueles que como profissão se dedicam à vida acadêmica, e demonstrar esse ódio a um pensamento diferente apenas aumenta o risco de afastar ainda mais intelectuais do Brasil. Butler teve que contar com todo um esquema de segurança durante a sua estadia aqui, e não é nada menos do que absurdo uma pessoa se privar da sua liberdade pelo simples fato de propor uma reflexão sobre a construção cultural da sociedade. Parece uma distopia.

A visita de Butler teve um desfecho ainda pior, quando ela e sua esposa foram agredidas no Aeroporto de Congonhas, na sexta-feira (10), com xingamentos de pedófila e sob gritos de que a professora universitária não era bem-vinda ao Brasil. Vergonhoso.

Demorou séculos até a igreja católica assumir e se desculpar pelo julgamento de Galileu Galilei, que defendia corretamente que a Terra não era o centro do universo. Vamos torcer para que não demore séculos para as pessoas entenderem que, antes de defender qualquer crença pessoal, é fundamental defender o espaço de fala, a democracia e a liberdade de expressão. Em uma sociedade tão plural como a nossa, temos o direito de não concordar com um determinado pensamento, mas nunca o de impor o que achamos.

Raciocínio que também é válido para os debates comunitários, onde grupos já se rivalizam apenas por pensarem diferente.

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