Apegos

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Costumávamos dizer que o ano só começava depois do carnaval. Sem a festa e vivendo uma continuação de 2020, o lado bom é que o ano começou sim e tivemos importantes avanços, como a marca de mais de 1 milhão de vacinados em nosso estado. Ainda sobre notícias “boas”, entre aspas porque o início da história não foi nada bom, o desfecho do episódio envolvendo o atleta Arthur Nory foi positivo. O morador da região, que esteve na redação do jornal logo após competir nas Olimpíadas do Rio em 2016, teve sua casa roubada. Levaram 33 medalhas, símbolos cujo valor vai muito além do material. As medalhas foram encontradas e devolvidas ao dono. Não que esses objetos por si só sejam fundamentais para representar o esforço, a dedicação e o sacrifício que resultaram em sua conquista. Tudo isso existiu e o mérito não seria tirado pela presença ou não de um troféu. Mas todos nós temos esse apego à materialidade que representa algo maior.

Bom seria se esse mesmo apego fosse aplicado a outros patrimônios ou promessas que são feitas. Seria muito mais fácil manter os compromissos ou cobrá-los. O cuidado com o que é público deveria ser algo que mexesse conosco tanto quanto ter algo tirado, roubado de nossas casas. Essa semana uma situação bastante grave foi revelada. Os prédios históricos do Parque da Água Branca não estão recebendo a manutenção que é devida. Infelizmente isso se aplica a tantas outras situações e lugares. A pandemia bagunçou a organização de todos e a ausência de pessoas em locais públicos contribui para a falta de preservação.

E mais triste ainda é ver que no caos que foi instaurado, muitas pessoas, empresas e instituições se mobilizaram para ajudar quem mais precisava, mas uma parte das doações não chegou a quem eram destinadas. Caixas de produtos, roupas e materiais de higiene estão guardadas no Fundo Social em más condições, podendo se deteriorar e perder sua possibilidade de utilização.

Vemos uma cultura de raiva contra a corrupção e corruptores, que é compreensível, mas não vemos a mesma mobilização quando o assunto é a ineficiência e o desperdício. Se tivéssemos esse mesmo olhar, que temos com quem comete crimes, com aqueles que são relapsos, por falta de palavra melhor, talvez não veríamos os mesmos alagamentos ano após ano, não aceitaríamos o atraso de anos para a entrega de obras de habitação, não veríamos a instalação de placas de proibido estacionar que depois de uma semana serão retiradas ou substituídas.

Precisamos urgentemente nos desapegar do discurso raivoso e generalista sobre o poder que corrompe e as más intenções políticas, e nos dedicar com a mesma intensidade para que as coisas sejam cuidadas e cumpram sua função.

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