Casa de Cultura do Parque apresenta mostra de Ana Raylander

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Até 25 de outubro, a Casa de Cultura do Parque apresenta a exposição “Política da superfície”, da artista visual Ana Raylander Mártis dos Anjos, que investiga a influência do maestro Heitor Villa-Lobos na implementação do ensino musical escolar no Brasil.

Após participar da 36ª Bienal de São Paulo e do 59th Carnegie International, na Pensilvânia, EUA, Ana apresenta na Casa de Cultura do Parque um novo desdobramento de sua investigação sobre os cantos orfeônicos, prática coral amplamente difundida no Brasil ao longo do século 20.

Ao tomar como ponto de partida a atuação de Heitor Villa-Lobos na implementação do ensino musical escolar durante a Era Vargas, a exposição recupera um momento em que a música foi incorporada como ferramenta de promoção da ideologia nacionalista do regime vigente. Os cantos orfeônicos — realizados em escolas, praças e estádios — reuniam grandes grupos sob regência unificada, compondo uma massa sonora que participava da construção simbólica de uma identidade nacional.

“Neste período, a ideia de Brasil emergia como um mito de unidade, sustentado pela promessa de uma voz coletiva que, ao mesmo tempo em que incluía grupos, também acabava por suprimir aquilo que desviava”, reflete a artista. Em “Política da superfície”, ela utiliza o rodapé do Gabinete como um operador semelhante, em diálogo com a localização da instituição, às margens do Parque Villa-Lobos. Situado entre a parede e o chão, esse elemento arquitetônico ocupa uma região limiar: embora associado ao acabamento do espaço doméstico, também atua como uma tecnologia discreta de normalização, capaz de mascarar irregularidades e produzir continuidade onde há fraturas — um tipo de verniz social, como aponta Ana Raylander.

Em “Política da Superfície”, a artista retoma o seu interesse pelos cantos orfeônicos e corais amadores, iniciado com o projeto Coral de Choros [Choratório] em 2018, para aprofundar a pesquisa sobre as contradições que atravessam a educação musical brasileira, a construção da ideia de povo e as narrativas de brasilidade cristalizadas no imaginário da nação. “Procuro observar com precisão aquilo que permanece junto ao chão, aquilo que se acumula nas bordas, as evidências que a história empurra para a porção mais rasteira do estrato social. Talvez seja justamente nessa região inferior, vizinha ao rodapé, onde as promessas de unidade começam a mostrar suas fissuras”, completa Raylander. Neste contexto, o silêncio assume um papel central para a artista no projeto, onde deixa de ser ausência de som e opera como um campo político.

Ana Raylander é reconhecida por desenvolve projetos a longo prazo com foco em pesquisa. Ela procura estabelecer um diálogo entre a história coletiva e sua biografia, recorrendo com frequência aos saberes da educação e escrita.

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