Ética e Ideologia do palco

0
607

Em 2000, ao encarar o desafio de trazer para os palcos brasileiros o texto “A Audiência”, do dramaturgo e ex-presidente da República Tcheca, Vaclav Havel, a diretora Soledad Yunge nem imaginava que, cinco anos mais tarde, a montagem desse mesmo espetáculo, no Sesi Leopoldina, viesse a espelhar a cena real da atual crise política brasileira. Na peça, o escritor Vanek (alterego do próprio Havel, interpretado por Edu Guimarães) em meio à repressão do regime comunista, que vê com reservas a sua obra, acaba tendo de trabalhar numa cervejaria, empilhando barris. Pressionado pelo sistema, o chefe de Vanek tenta forçar o escritor a falar de suas atividades, oferecendo-lhe em troca grandes vantagens materiais. “Nem de longe sonhávamos que um dia estaríamos apresentando a dramaturgia de Havel num contexto político tão efervescente quanto este do Brasil de hoje”, afirma Soledad. Mas o fato é que o conflito ético e ideológico vivido nos anos 60 por Vanek propicia uma leitura reflexiva dos bastidores do Congresso Nacional, onde já não sabemos se Fausto (o lendário personagem que vendeu sua alma ao diabo) é regra ou exceção. “O diálogo travado entre chefe e funcionário é denso, revelando os conflitos interiores de ambos os personagens”, afirma Edu Guimarães. “Claro que dá para fazer um paralelo com a crise em Brasília, pois Havel nos incita a refletir sobre a ética”, acrescenta o ator, que diz jamais ter acreditado em políticos. “Sempre anulei meu voto. Nunca confiei em ninguém. E pelo que vemos atualmente, sinto que agi corretamente”.
“A Audiência” faz parte do projeto Repertório Havel, que agrega outro belíssimo texto do autor tcheco, “Vernissage”, onde o mesmo Vanek é convidado pelos amigos Vera e Michael (interpretados por Vera Kowalska e Marcos Cesanae) para uma celebração íntima, comemorando a reforma do apartamento do casal. Com humor e ironia, Havel critica o modo pequeno burguês de ser e ostentar. “O projeto consiste na montagem simultânea dos textos de Havel, ambos de grande teor de crítica social, política e comportamental”, afirma a diretora do Sesi Leopoldina, Leni Arlete Bertolla.

A Audiência e Vernissage
Sesi Vila Leopoldina
Rua Carlos Weber, 835
Quintas e Sextas (20h): A Audiência
Sábados (20h) e Domingos (19h): Vernissage. Até 9 de outubro. Entrada franca (o ingresso deve ser retirado com uma hora de antecedência)
Informações: 3833-1091 / 1092 / 1093

COMPARTILHE
Próximo artigoPRESTIGIO

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA