Preservação possível

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Paradoxalmente, na mesma semana em que temos um evento que celebra a tradição e cultura paulista, tivemos também uma discussão sobre a ameaça da preservação da memória dos bairros da cidade por causa do interesse imobiliário.

Falando primeiro das coisas boas, quem puder conferir o evento Revelando SP, que acontece até domingo (17) no Parque da Água Branca, terá uma ótima oportunidade de conhecer manifestações culturais de todo o estado, com música, dança, artesanato e gastronomia de várias cidades.

Agora, algo que não está sendo discutido com a ênfase que deveria é a proposta da Prefeitura de fazer ajustes na Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo, mais conhecida como Lei de Zoneamento. Esses ajustes beneficiam principalmente o mercado imobiliário, permitindo prédios mais altos e adensamento.

Novas e gigantes torres significam o aumento de carros, poluição e trânsito. Mesmo as obras já podem afetar a estrutura de imóveis antigos ou que são patrimônio, como a Casa Amarela da Vila Romana, que muito em breve poderá perder uma considerável parte da incidência do sol com o empreendimento que está sendo construído no quarteirão da frente. O próprio Parque da Água Branca já foi vítima quando, em 2002, obras de escavação de um prédio afetaram a nascente que abastece as fontes do parque, secando o chafariz e resultando na transferência emergencial dos peixes, sendo que parte deles não sobreviveu.

O crescimento da cidade é inevitável, mas ele não pode ser feito de forma desordenada, como já foi por muitos anos, nem ser prejudicial para os moradores que viveram toda sua vida nos bairros e têm o direito de preservar suas casas térreas, sobrados e vilas.
Nas obras de ficção, criou-se um ideário futurista que retrata veículos voadores e prédios com 50 andares ou mais. Podemos estar ainda distantes desse cenário, mas não faltam exemplos em que a ficção se tornou realidade. Queremos morar em pequenos apartamentos, cujo nome mercadológico é “home studio”, diluídos em imensas torres e perder toda a memória das casas antigas, praças e áreas verdes? Cada vez mais isolados em nossas áreas privadas e abrindo mão do uso de espaços públicos saudáveis?

Se for respeitado o Plano Diretor Estratégico, é possível conciliar o crescimento da cidade com a sua preservação. É importante participar das audiências públicas sobre os ajustes da Lei de Zoneamento, antes que a proposta seja enviada à Câmara e votada sem um debate adequado com a população. Preservar o bairro que vivemos é uma luta. Se os moradores não se envolverem, o mercado imobiliário prevalecerá, em busca de altos lucros e sem a preocupação devida com a manutenção da qualidade de vida.

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