Acolhimento e educação

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O som da música e as gargalhadas eram ouvidos do outro lado do portão do abrigo da Avenida Imperatriz Leopoldina, na quarta-feira (31). Nem parecia que se tratava de moradores de rua que aproveitaram a acolhida na noite especial do aniversário de 14 anos do abrigo Zancone, para os momentos de descontração.

Muitos pareciam esquecer os problemas vividos nas ruas ou a dependência química do álcool ou droga para participar do jantar especial, com estrogonofe, e depois das brincadeiras no salão de entrada. As risadas eram provocadas pela apresentação da dupla de palhaço – formada por um educador e um usuário do espaço – no quadro de humor. A supervisora de Assistência Social, Cleide Leonel, a assistente social Leila Murari e a diretora do Instituto Rogacionista, Dulcinea Pastrello, acompanharam a programação.

Um coral formado por um grupo de usuários do albergue cantou a esperança de dias melhores e a busca pela paz interior. Foi emocionante para quem assistiu. O albergue fica em uma importante veia de tráfego do bairro, a Avenida Imperatriz Leopoldina, por onde circulam empresários importantes, gente nova e antiga e também a população de rua. A presença do albergue Zancone na avenida foi motivo de polêmica entre muitos moradores novos e integrantes do Forúm Social da Leopoldina – que discute a situação de moradores de rua. Mas vozes que até então eram contrárias, aos poucos, entendem que sem o espaço, mais de cem homens acolhidos, permaneceriam ao relento pelas calçadas do bairro, engrossando ainda mais a população que perambula pela Leopoldina atraídas pela fartura de doações, alimentos e bicos da Ceagesp (maior entreposto de alimentos da América Latina).

As vagas no albergue são disputadas. Moradores de rua fazem filas na esquina da Rua Froben à espera do Serviço Especializado de Abordagem para encaminhamento para uma das vagas. Nem todos conseguem. A região tem mais de 400 homens morando nas ruas do bairro. O albergue tem 100 vagas, mais 20 no período de baixas temperaturas, devido ao plano emergencial no frio. A expectativa da implantação do Espaço Vida, prometido pelo prefeito João Doria quando foi eleito, parece que ganhou novo nome: CTA – Centro Temporário de Acolhimento. O problema da falta de diálogo com a população, na gestão anterior, parece se repetir na atual, para decisões que impactam a vida em comunidade.

Na ação do Cidade Linda da Avenida Sumaré, no sábado, o prefeito disse que pretende inaugurar 44 Centros Temporários de Acolhimento para moradores de rua até o fim de sua gestão. Sua visão social é justa, É preciso fazer algo, e urgente, para resolver, ou melhor, minimizar o problema social de pessoas que têm a marquise como moradia.

Segundo a supervisora de Assistência Social da Lapa, Cleide Leonel, os CTAs serão a porta de saída dessas pessoas do sistema de assistência, com pessoas inseridas no mercado de trabalho depois de passar por qualificação. Mas a discussão vai além. Na Vila Ipojuca, pais de alunos do Centro de Educação Infantil Jamir Dagir e da Escola Municipal de Educação Infantil Professora Ana Maria Poppovic temem pelos filhos, uma vez que muitos moradores de rua fazem uso de entorpecentes e a área do CDC e da escola é separada apenas por um muro. Eles querem ser ouvidos. Essa semana tem mais uma reunião na Ipojuca. O prefeito regional da Lapa Carlos Fernandes afirma que não existe projeto para área do CDC esse ano, mas os pais das crianças e vizinhos da área sabem que o crack é um entorpecente altamente viciante e torna a pessoa violenta. Essa droga está cada dia mais perto de nós.

Daí o medo dos pais dessas crianças com a possível instalação do CTA e migração de dependentes ao lado das escolas infantis.

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