Sobre cadeiras e urgências

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Enquanto algumas pessoas sofrem para comprar itens básicos de consumo, caso do leite que é facilmente encontrado por R$ 8 nos mercados, existem outras que estão dispostas a desembolsar R$ 1800 para adquirir uma cadeira que pertenceu ao estádio do Pacaembu. O problema não está em adquirir um objeto exclusivo por preço elevado, afinal, cada um é livre para gastar seu dinheiro como bem entender, mas a discrepância das realidades existentes preocupa.

A comercialização das cadeiras gerou muita repercussão nas redes sociais, com críticas em relação ao lucro em cima de um objeto que deveria ser considerado patrimônio histórico público. A verdade é que se as cadeiras não fossem vendidas, provavelmente seriam descartadas. Já faz um tempo que a Prefeitura tenta se livrar daquilo que não consegue cuidar com o devido zelo, caso também dos cemitérios municipais.

Há quem diga que não existe diferença entre concessão e privatização, ainda mais considerando os longos prazos dos contratos que podem ser de 25, 35 e até 50 anos. Utilizar o termo “concessão” passa a ideia de que se o concessionário fizer algo inadequado ou não atender os objetivos que se propôs, o equipamento repassado poderia voltar ao domínio da administração pública. Mas é difícil pensar que, sem segurança jurídica, alguém estaria disposto a gastar milhões em reformas, mesmo já tendo os números previstos do retorno da operação.

Também é inaceitável a exclusão da população em debates de interesse público, como se a Prefeitura tivesse sozinha o direito de escolher o que acha melhor para a cidade. A concessionária que assumiu o complexo do Pacaembu pediu mudanças no contrato, ampliando de 35 para 50 anos sua duração, uma redução de 71% da outorga que seria paga aos cofres públicos, e a incorporação da Praça Charles Miller para exploração comercial. Tudo isso alegando uma necessidade de compensação financeira pelos prejuízos da pandemia. O que é estranho considerando que as obras, incluindo a demolição do Tobogã, ocorreram durante o período de restrição das atividades.

Mas o pior é que isso esteja sendo discutido em sigilo, sem participação dos moradores que utilizam a praça. Isso abre um precedente perigoso para qualquer área pública ser incorporada ao projeto de uma empresa, sem a população sequer ser ouvida.

Empresas e governos sempre vão buscar o caminho economicamente mais vantajoso para atender seus interesses. Por isso é urgente que nós, os moradores da cidade, nos apropriemos daquilo que está ligado a nossa qualidade de vida. Sem defender nossas casas e os espaços que utilizamos, o mais provável é não resolver os problemas que existem e perder aquilo que é bom.

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