Coletivo das Vizinhas participa da Jornada

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Foto: Bárbara Dantine

Bárbara Dantine
Vizinhas da Casa Amarela terão trabalhos expostos na Jornada do Patrimônio

Apesar do grande estresse, a especulação imobiliária na Vila Romana teve ao menos uma coisa positiva, que foi aumentar laços que já eram fortes. É o caso de Janice de Piero, da Casa Amarela, e suas vizinhas Iramaia Sganzerla, Elza Prebianchi, Cida Giovanini Altieri, Elza Pavão Fabossi, Ondina Tonella Braga e Maria Luiza Prebianchi.

Com idades entre 60 e 84 anos, elas se conhecem a vida toda, assim como seus pais e avós, que sempre foram vizinhos. Elas lembram-se de um bairro que não existe mais, com ruas de terra, a travessia por cima do Córrego Tiburtino, quando ele era aberto, para chegar à Escola Estadual Romeu de Moraes, da carvoaria (que vendia carvão para alimentar os fogões domésticos) que hoje deu lugar a uma produtora de vídeos, entre tantas outras lembranças. “A convivência era muito boa, todos se conheciam e hoje nem sabemos quem está passando. Com o portão eletrônico as pessoas entram e saem e não conversam mais no portão. Pena que acabou, mas que bom que temos essa recordação”, relata Ondina.

Outra lembrança que todas compartilham era o grande fluxo de pessoas que saiam juntas da Melhoramentos, seja para almoçar ou ao final do expediente. Três das vizinhas trabalharam lá inclusive. E quando alguém falecia, geralmente o velório era realizado na própria casa, e de lá o caixão era levado a pé para o Cemitério da Lapa.

Desde fevereiro as vizinhas resolveram se juntar para realizar uma série de trabalhos ligados ao valor de suas próprias casas, e assim nasceu o Coletivo das Vizinhas. “Eu herdei a Casa Amarela, que foi construída em 1921. Ela já teve até fama de mal-assombrada, após os vários períodos de locação que a degradaram. Levei vinte anos para arrumar tudo. Tive essa ideia de criar um coletivo por essa questão de memória, por conhecer as vizinhas a minha vida toda, e isso tem um valor afetivo muito grande. Mas o que me levou mesmo a fazer o projeto foi a especulação imobiliária no bairro”, relata Janice.

Foram feitas negociações com três das vizinhas, sobre a venda de suas casas para a construção de um prédio de 16 andares. A negociação não avançou, mas as obras sim, sem a demolição das casas. As casas que antes foram cotadas para compra, estão com rachaduras, o que levou uma das vizinhas a impedir que seu netinho durma no quarto dele, por medo de desmoronamento. Outra se mudou temporariamente para a casa da irmã após ter sido aberto um buraco em sua cozinha. O reparo que deveria ter levado uma semana, levou um mês. “Fiquei feliz por não perder as minhas vizinhas, mas triste porque elas estão sofrendo. A forma que achei de lidar com isso tudo foi fazer esse projeto, discutindo os valores de uma casa além de sua materialidade. Sua simbologia como vínculo”, afirma Janice.

O resultado dos trabalhos fará parte da Jornada do Patrimônio, neste final de semana, com a exposição “Onde a Casa Mora?”. “Nossa exposição mostra que a vida tem fragilidade, tem delicadeza e ressalta a importância das pessoas, algo que o processo de especulação não considera”, completa Janice. Além do material que estará disponível na Casa Amarela (Rua Camilo, 955), das 12h às 18h, serão espalhados textos pelos postes do bairro com lembranças das vizinhas, entre eles “Flerte na Praça Cornelia”, “Cine Nacional” e “Ao som do gramofone”.

 

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